METALÚRGICOS VÃO BUSCAR DEBATE COM EMPRESARIADO PARA POLÍTICAS DE FORTALECIMENTO DA INDÚSTRIA NACIONAL

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) –

ALEX SANTOSO setor de óleo e gás passou e continua passando por mudanças regulatórias que favorecem o interesse das petroleiras, deixando de lado os pleitos da indústria nacional. A quebra do conteúdo local, por exemplo, foi um dos duros golpes na cadeia brasileira de fornecedores, deixando um ponto de interrogação sobre o futuro das companhias nacionais. Outras medidas adotadas pelo governo e Petrobrás, como a venda de 80 mil toneladas de peças e aço das plataformas de petróleo P-71 e P-72 como sucata, foram alvos de duras críticas. “Isso é um crime. Não tem como descrever isso de outra forma“, afirmou enfaticamente o secretário de ciência, tecnologia e inovação da Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil (Fitmetal), Alex Santos. Diante deste cenário, a entidade lançou um movimento para buscar o diálogo com o empresariado, a fim de que sejam criadas políticas para fortalecer a indústria nacional.

Como o senhor avalia o atual processo de vendas de ativos por parte da Petrobrás?

Nós avaliamos de maneira muito negativa. O preço do petróleo em si caiu muito e isso influencia muito a Petrobrás, mas isso é um movimento global. Independente desse movimento mundial, a estatal mudou suas políticas, sobretudo em relação a reajuste. Hoje em dia, qualquer movimentação do mercado internacional faz com que a Petrobrás adeque seus preços. Isso, independente de movimentações no preço do barril. Por exemplo, com os últimos adventos da crise na Europa, da instabilidade que gerou com os atritos com a Coreia do Norte, tivemos dois aumentos de combustíveis e derivados que independeram do preço do barril do petróleo.

Hoje, a Petrobrás está mais sensível a essas oscilações. E isso gera para ela uma rentabilidade muito grande,  porque continua pagando preços pequenos em relação ao preço do barril. Isso produz um lucro grande para a estatal. Isso, sem dúvida, não está sendo revertido de forma alguma para os interesses do país. Vemos isso com as vendas dos ativos, que consideramos extremamente negativas, porque poços de petróleo estão sendo leiloados sem obrigatoriedade de cumprir metas de conteúdo local. Ou, com a obrigatoriedade muito pequena, que não gera empregos no Brasil. A maioria dos consórcios está quebrada, em função de toda a confusão que estamos vivendo. A maioria das empresas que capitaneava os consórcios está envolvida na Lava Jato. Então, você está vendo um grande número de empresas fora do país adquirindo ativos, sem obrigatoriedade de cumprir metas de conteúdo local.

As companhias vem para cá e extraem o óleo do pré-sal, que era uma expectativa enorme para o país. Mas com a política adotada hoje pela Petrobrás e pelo governo, está deixando de ser. Corremos o risco de ver as coisas acontecendo no mar aberto, com a miséria reinando no continente.

A Petrobrás usa seu alto endividamento como justificativa para seu programa de desinvestimentos. Na sua opinião, que outro caminho a estatal poderia trilhar para equilibrar suas finanças?

A Petrobrás é uma empresa muito querida pelo povo brasileiro. Ela é uma companhia que tem um clamor nacional muito grande. Não sou um especialista no assunto, mas acredito que com o preço do barril do petróleo no mercado internacional na faixa que está hoje, a Petrobrás poderia se capitalizar a partir dos combustíveis e também de outras políticas que poderiam reduzir esse déficit, sem precisar se desfazer de ativos tão preciosos. Com certeza, pode ser que existam ativos dentro da Petrobrás que de fato são passíveis de sofrer desinvestimento. Mas, da forma que está, é muito complicado.

O Petronotícias noticiou recentemente o episódio onde a Petrobrás vendeu como sucata 80 mil toneladas de peças e aço das plataformas de petróleo P-71 e P-72. Como explicar essa posição da empresa?

Eu acredito plenamente que houve uma mudança de visão estratégica dentro da empresa e no país, como um todo. Nos governos Lula e Dilma você tinha uma política de industrialização do Brasil. Essa política poderia ser questionada em diversos pontos, e são legítimos esses questionamentos, porque foram cometidos muitos erros. Mas havia uma política que visava industrializar o país, para priorizar o setor produtivo brasileiro.

Hoje, com o governo que aí está posto, que já deveria estar fora do comando do país há tempos, essa política mudou. E para mim, um exemplo claro dessa mudança de política é justamente isso: vender como sucata uma plataforma que estava 80% concluída, gerando um desemprego de quase 20 mil trabalhadores no Rio Grande do Sul. Sucateando algo que poderia contribuir para a Petrobrás ter um protagonismo maior na exploração do pré-sal. Hoje temos tecnologia para extração, mas estamos desconsiderando isso tudo. O governo está desconsiderando isso tudo e jogando na lata do lixo. Isso é um crime. Não tem como descrever isso de outra forma.

E em relação aos últimos leilões, com a forte presença e participação de estrangeiras como a ExxonMobil? Qual a sua avaliação?

Eu acho que vai ser a pior possível. Estamos sem a obrigatoriedade do conteúdo local. Eu não tive acesso aos contratos, mas se tem essa obrigatoriedade, ela é mínima, em padrões irrisórios. E não vai gerar a possibilidade de empregos nacionais entrarem nesse circuito. Acredito que vamos voltar a períodos da época de Fernando Henrique Cardoso, onde se explorava petróleo, mas as grandes multinacionais estrangeiras exploravam e as nacionais forneciam papel higiênico e material limpeza para cumprir as metas de conteúdo local que ali estavam postas. Eu olho com muita preocupação.

Não vejo problema na entrada do capital estrangeiro e internacional, mas desde que tenha uma política nacional voltada à industrialização e geração de emprego e renda. Essa entrada de capitais, reservadas as devidas proporções, no mínimo, deveria ser com as regras que a China impõe. Os chineses permitem a entrada de capital internacional, mas 51% do controle desse novo organismo que nasce é do país. Nós vamos desperdiçar um potencial que o Brasil hoje tem e que não vai gerar nada para nosso povo. Muito pelo contrário. Vai gerar riqueza para os países que estão vindo e cumprindo seu papel na exploração do petróleo. 

Não adianta colocar dinheiro dentro da Petrobrás. Na minha opinião, isso não resolve. A Petróbras precisa entender que tem um papel de catalisar a indústria nacional. Ela é uma empresa brasileira e tem que se entender como tal. Ela é do povo brasileiro, então tem que entender que a obrigação dela não é só ser uma empresa que está no mercado, mas também ter foco no que vai gerar desenvolvimento para o país e para nosso povo.

Quais serão os próximos projetos da Fitmetal?

Nós estamos capitaneando um movimento com diversos segmentos do universo sindical chamado “Brasil Metalúrgico”. Nós estamos buscando, a partir desse movimento, dialogar de forma muito ampla com o movimento sindical e com a indústria nacional, no sentido de criar políticas para fortalecer a indústria brasileira e gerar condições para que ela retome o protagonismo nesse debate sobre o desenvolvimento do país. Hoje, a indústria nacional está renegada nesse debate. Isso para nós, trabalhadores da indústria, é um problema, porque reflete no desemprego e má qualidade da renda. Estamos buscando fazer esse debate com o empresariado nacional para que possamos definir políticas e rumos para virar esse jogo.

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1 Comentário em "METALÚRGICOS VÃO BUSCAR DEBATE COM EMPRESARIADO PARA POLÍTICAS DE FORTALECIMENTO DA INDÚSTRIA NACIONAL"

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Deco Bamba
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O Conteúdo Local é um dos dispositivos para alavancar a indústria nacional. O PSDB e PMDB de mercado livre não existe> As condições trabalhistas ,sociais, estruturais e educacionais do pais não permite concorrer de igual para igual com China, Coréia do Sul, Cingapura , etc. Não conseguimos nem concorrer de igualdade com alguns países europeus. É pura ilusão mentirosa vender isto pra o povo brasileiro. Saímos nos bem na Agro indústria e na Pecuária simplesmente porque temos terra fértil.

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