AMAZUL REVELA PRÓXIMAS ETAPAS DO PROJETO DO REATOR MULTIPROPÓSITO BRASILEIRO

Por Davi de Souza (davi@petronoticias.com.br) – 

Ney Zanella dos Santos

A Amazul está completando quatro anos de existência já mirando em seus próximos desafios. A companhia é co-empreendedora do Reator Multipropóstito Brasileiro (RMB), que tornará o País autossuficiente na produção de substâncias utilizadas no tratamento e diagnóstico do câncer. Dentro de dois anos, a Amazul espera concluir o projeto detalhado do reator. Segundo o diretor-presidente da empresa, Ney Zanella dos Santos, está em curso uma negociação com a companhia argentina Invap, que tem expertise na área nuclear, para a elaboração do projeto detalhado do RMB. “Já encomendamos à Fundação Getúlio Vargas um modelo de negócios para o RMB. Com base nesse modelo, vamos prospectar outras parcerias, nacionais ou internacionais, para viabilizar o empreendimento”, revelou o executivo, que ainda detalhou os demais projetos onde a Amazul participa.

Qual o balanço que o senhor faz da Amazul nesses primeiros quatro anos? Quais as principais conquistas?

A Amazul ainda está em processo de consolidação para cumprir sua missão de desenvolver, absorver, manter e transferir tecnologias para o Programa Nuclear da Marinha (PNM), Programa Nuclear Brasileiro (PNB) e Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub). Uma das razões da criação da Amazul foi conter a evasão de talentos por questões salariais, que tanto prejudicou o PNM e o PNB. A princípio, herdamos cerca de 1.200 empregados da Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron). Esses profissionais já trabalham há anos, às vezes décadas, no Programa Nuclear da Marinha, que vem sendo executado desde 1979 no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo.

O primeiro passo da Amazul foi a implantação de um Plano de Cargos, Remuneração e Carreira, que equiparou a remuneração dos empregados aos valores praticados no mercado e, mais do que isso, criou um plano que permite o desenvolvimento da carreira do empregado.

Outra iniciativa relevante foi a realização de concursos públicos para contratar profissionais para os projetos do PNB, PNM e ProSub. Ainda para reter os profissionais e atrair novos talentos, implantamos um plano de previdência complementar e programas de desenvolvimento de nossos recursos humanos.

Essas foram, sem dúvida, grandes conquistas, principalmente em um momento de grandes dificuldades econômicas.

Hoje, temos cerca de 2.000 empregados, mais de 90% deles voltados para as atividades-fim da empresa. Temos uma estrutura enxuta, com apenas 120 pessoas na gestão. Mas para atender aos projetos de grande complexidade tecnológica, o número de empregados deverá atingir 2.500 nos próximos cinco anos. Só a construção do submarino com propulsão nuclear é o maior projeto estratégico em andamento no Brasil, tanto pelos valores envolvidos e pela complexidade tecnológica, quanto pelo arrastro para a base industrial de defesa que proporcionará. É um programa que exigirá, em determinado momento, um número maior de engenheiros, especialistas e técnicos capacitados.

Quais os principais programas e projetos de que a Amazul participa?

A Amazul participa do Programa Nuclear da Marinha, que capacitou o Brasil no domínio do ciclo do combustível nuclear, e no desenvolvimento de uma planta nuclear de geração de energia elétrica, incluindo a construção de um submarino nuclear. No CTMSP – Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo – os empregados da Amazul atuam em projetos como a construção do chamado Laboratório de Geração Núcleo-Elétrica (Labgene), um protótipo de reator construído em terra, cujo propósito é desenvolver a capacidade tecnológica nacional para reatores pequenos de até 100 MW. O Programa Nuclear da Marinha é a superação de um grande desafio tecnológico, no qual a Amazul tem um papel de protagonismo.

No âmbito do ProSub, a empresa participou do desenvolvimento do projeto conceitual e básico do Complexo Radiológico do Estaleiro e Base Naval de Itaguaí, onde será construído o primeiro submarino com propulsão nuclear.  

Com a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), a Amazul assinou contrato que tem por objeto a elaboração dos projetos conceitual e básico da Unidade de Testes e Preparação de Equipamentos Críticos e de Treinamento, de sua Fábrica de Combustível Nuclear, bem como a prestação de serviços de consultoria de engenharia para suporte técnico à Implantação e licenciamento da UTT.

Para cumprir seus objetivos, a empresa pode atuar no desenvolvimento de novas tecnologias, comercialização de produtos, prestação de serviços técnicos, gerenciamento de projetos, implantação e gestão de empreendimentos e operação de instalações.

Qual outro projeto estratégico da empresa?

A fixação do conhecimento é um desafio inerente à atividade das empresas de alta tecnologia, principalmente aquelas que, como a Amazul, lidam com tecnologia estratégica, que está em constante evolução e é dominada por poucos países no mundo.

A gestão de conhecimento é, portanto, outra oportunidade de negócio da Amazul. A empresa elaborou um modelo de gestão de conhecimento, seguindo as regras da Agência Internacional de Energia Atômica, que está sendo implantado num projeto-piloto, numa das unidades do CTMSP.  A partir de agora, podemos oferecer a implantação deste projeto em outros empreendimentos nucleares no Brasil.

Como está o andamento do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB)?

A Amazul é co-empreendedora do RMB, junto com a Comissão Nacional de Energia Nuclear. O projeto básico já está pronto e já temos garantidos os recursos para a elaboração do projeto detalhado, que deverá ser concluído dentro de dois anos.

Qual o investimento total do empreendimento?

O projeto detalhado envolverá recursos estimados em R$ 150 milhões, que já estão disponibilizados via Finep, empresa pública de fomento à ciência, tecnologia e inovação. Porém, a construção e implantação do RMB absorverão investimentos em torno de 500 milhões de dólares, que deverão ser levantados junto ao governo federal e outros parceiros.

Qual o principal desafio no momento?

Temos vários desafios. O primeiro é consolidar as parcerias com o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, com o Ministério da Saúde e outras instituições. Estamos também negociando parceria com a empresa argentina Invap, que tem expertise na área nuclear e deverá participar da elaboração do projeto detalhado do RMB. Já encomendamos à Fundação Getúlio Vargas um modelo de negócios para o RMB. Com base nesse modelo, vamos prospectar outras parcerias, nacionais ou internacionais, para viabilizar o empreendimento.

O empreendimento poderá enfrentar falta de recursos, já que depende basicamente de aportes do governo federal?

É lógico que existem muitas incertezas em razão da crise econômica que o Brasil atravessa. Mas temos a convicção de que vamos superar em breve essas dificuldades. Por ser um projeto estratégico, de grande alcance social, o RMB contará com o apoio da sociedade e deverá ter o status de prioridade no governo, de forma a garantir os recursos necessários. Além disso, é um empreendimento de médio prazo, de cerca de cinco anos, ao longo do qual os investimentos serão diluídos. Vamos prospectar outras parcerias para concretizar o RMB.

O que já foi conseguido até agora?

O terreno para a construção do RMB, no município de Iperó, em São Paulo, já foi cedido pela Marinha do Brasil. O governo do Estado de São Paulo também concluiu o processo de desapropriação de outra parte do terreno onde será implantado o RMB. O projeto básico de engenharia já está pronto. As licenças prévias já foram concedidas. A próxima etapa é o desenvolvimento do projeto detalhado, ao fim do qual poderão começar as obras de construção.

Qual a importância do RMB para o Brasil?

Centenas de milhares de brasileiros se submetem a cada ano a exames de cintilografia e PET-Scan, entre outros, usados para diagnóstico de câncer e doenças cardíacas, e fazem uso de radiofármacos para tratamento de tumores. Os radiofármacos são substâncias radioativas usadas, em quantidades mínimas e de forma segura, como ferramenta para acessar o funcionamento de órgãos e tecidos vivos, produzindo imagens e diagnósticos e auxiliando o tratamento. Com baixa radioatividade, essas substâncias não oferecem riscos quando aplicadas.

O Brasil importa da França, Rússia e África do Sul radioisótopos, insumo para a produção dos radiofármacos, que são repassados a clínicas e hospitais. Esses permitem a realização anual de 2 milhões de procedimentos de medicina nuclear, número bem inferior à demanda nacional. Para se ter uma ideia, a vizinha Argentina realiza cinco vezes mais procedimentos.

Além disso, aumenta a cada ano o número de pacientes que precisam de exames médicos que fazem uso de tecnologia nuclear, mas não se amplia o acesso a ela, principalmente das populações mais carentes. O Sistema Único de Saúde (SUS), por exemplo, é responsável por apenas 30% da demanda nacional. E 80% dos quase 400 mil procedimentos de diagnóstico realizados pelo SUS são da esfera privada. Soma-se a isso o baixo acesso de populações fora do Sul/Sudeste a tecnologias proporcionadas pela medicina nuclear. 

Daí a grande importância do RMB para a saúde dos brasileiros. Mas não é só a área de saúde que será beneficiada pela construção do RMB, pois as aplicações dos radioisótopos se estendem à indústria, ao meio ambiente e à agricultura, por meio de traçadores nucleares. Além disso, o empreendimento desenvolve capacidade nacional para testar e qualificar materiais e combustíveis nucleares, e amplia conhecimento e segurança em projetos de reatores de potência, que podem ser usados seja para geração de energia, seja para propulsão naval. O RMB é uma conquista de todos nós.

Como a Amazul tem atuado para buscar alternativas para aumentar o índice de nacionalização dos produtos necessários à construção de submarinos, inclusive o de propulsão nuclear.

Uma das estratégias é prospectar empresas, tanto nacionais quanto estrangeiras, e não apenas aquelas na área de defesa. São empresas que têm condições de produzir, no Brasil, os equipamentos, sistemas e soluções não nucleares necessários para os submarinos, inclusive o de prospecção nuclear. Em alguns casos já avançamos as negociações, mas, no momento,  não podemos divulgar por questões estratégicas.

A Amazul declarou que tem interesse em participar de outros empreendimentos na área nuclear, como o Depósito Complementar de Armazenamento de Combustível Usado da Central Nuclear de Angra e o Laboratório de Fusão Nuclear. Pode detalhar isso?

Com suas expertises, a Amazul poderá, efetivamente, participar de projetos como estes. Por enquanto, eles ainda em fase de estudo por outras instituições e não temos como falar sobre isso. Mas certamente podemos participar deles se formos convidados.

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